Les Héritiers (Os Herdeiros) é um marco na sociologia da educação que propõe no pleno sentido de Kuhn, um novo paradigma para a pesquisa e produção sociológica. Através de pesquisas empíricas que manejavam as enquetes e os dados recolhidos, enviesou uma conclusão muito distinta do otimismo até então professados quanto ao sistema de educação francês. É nesse sentido que se pode afirmar ser um trabalho que é claramente ligado à crítica política e social sem perder o status de cientificidade. Tal concepção de ciência, por sua vez, foi posta, clara e evidentemente, em Le Métier de Sociologue (A Profissão de Sociólogo), obra na qual as principais qualidades do sociólogo são aquelas de romper com o senso comum e, ao mesmo tempo, construir o fato social, numa clara vinculação à epistemologia de Bachelard, que propõe a inversão do vetor: não é a teoria que determina o real, mas o real que determina a teoria.
A par disso e com o propósito de levar tal análise a cabo, pode-se pensar numa organização em três partes. A primeira delas arvora-se na direção de tracejar as diferenças entre o projeto de Bourdieu e Passeron em relação àquele de Durkheim no que se refere à compreensão tanto da educação como da escola. Para Durkheim, a escola é uma instância institucional integradora e socializadora fundamental para a sociedade. Inversamente, embora os autores retomem a centralidade da escola nos mecanismos de reprodução das estruturas sociais, esta instituição é responsável por perpetuar as desigualdades pregressas dos estudantes por basear-se em critérios que resultam exacerbadores do privilegio cultural. Dessa forma, a escola nada mais faz do que avaliar a partir de elementos os quais já estão culturalmente presentes em estudantes cuja vivência familiar permite que tenham acesso à ambientes requintados e formadores do bom gosto.
A segunda parte, por sua vez, procura recuperar as influências teóricas que estavam presentes no meio sociológico francês em meados do século XX. Em vista disso, recupera-se os principais traços da sociologia francesa da educação, após a queda da influência da tradição durkheimiana até os anos que antecederam a produção de Les Héritiers. Deu-se especial atenção para a corrente estrutural-funcionalista, que tem em Parsons seu mais renomado defensor. Parsons ofertou uma concepção de sociedade que implicava o exercício equilibrado de funções para a estabilidade e sobrevida social. À educação cumpriria, assim, a função de socialização e integração social, através da qual se formavam os agentes que, em igualdade de condições, disputariam as funções hierarquicamente mais nobres socialmente.
Na terceira parte, que pode ser dividida em outras duas, explana-se, em primeiro lugar, acerca das principais características teóricas e metodológicas de Les Héritiers. Nesse sentido, argumentou-se sobre os aspectos que favoreceram a recepção do livro, notadamente, a dimensão da estrutura intelectual que, como Gremion sugeriu, dialoga diversamente com Weber, Marx e Dourkheim. Além disso, apontam-se nessa parte algumas teses presentes no interior da obra. Na segunda subparte, por fim, argumenta-se sobre a concepção de ciência que se encontra radicada nas duas obras. O paradigma que se afirma estar presente em Les Héritiers é o modus operandi formulado a posto a manifesto em Le Métier de Sociologue. É uma concepção, conforme evidenciado, que rompe com o senso comum e, opondo-se ao empirismo, muito presente na metodologia positivista, propõe que o fato social seja construído. Dessa feita, estabelece-se uma vinculação entre as duas obras na direção da concepção de ciência. Além disso, embora Bourdieu e Passeron tenham se afastado a partir do início da década de 70, pode-se ver como claramente identitária das trajetórias individuais posteriores esse momento, tanto em relação à concepção de ciência, quanto no que diz respeito à formulação das categorias epistemológicas e sociológicas.
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Para a discussão mais ampla, na qual essa conclusão se insere, remete-se ao texto:
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ROHLING, Marcos. A Constituição de um Novo Paradigma das Ciências Sociais. Observações Teórico-metodológicas sobre 'Les Héritiers'. In: SANTOS, Tiago Ribeiro; SILVA, Vera Lúcia G.; VALLE, Ione R.; CATANI, Denise B.. (Org.). Heranças da Sociologia de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron: 50 anos de Os Herdeiros. 1ª. Ed. Curitiba: CRV, 2015, p. 270-296.
O artigo se encontra disponível em:
https://www.periodicos.udesc.br/index.php/linhas/article/view/1984723815292014270
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