Desde o
aparecimento de A Theory of Justice,
em 1971, a filosofia política tem sido um espaço intelectual fecundo para
proposições a respeito dos valores mais elevados da existência social. Não
apenas a economia, a psicologia, a sociologia ou o direito, mas a educação,
inclusive, tem recuperado suas relações com a filosofia política. Conforme se entende,
o debate em torno da justiça na educação é um indicativo que aponta para essa
direção. Na verdade, o que se percebe é que a atual agenda de questões da
filosofia política, mais do que recuperar, põe em relevo os próprios fins da
educação, se se quiser nomear dessa forma, quando se considera o debate
liberal-comunitarista.
Os
comunitaristas, um grupo de pensadores não homogêneo e com interesses
filosóficos bastante variados, estão arrolados mais por um conjunto de críticas
afins ao liberalismo, o qual tem em Rawls sua versão paradigmática (mas não
exclusiva, já que pensadores que se mostram simpáticos aos pressupostos
liberais estão incluídos), do que pelas críticas que seguem concepções
distintas, como aquela do marxismo ou mesmo do feminismo. Os pontos em relação
aos quais convergem, em termos de crítica, são muitos, as quais podem ser
sumarizados nos seguintes tópicos:
(i)
concepção
de pessoa;
(ii)
individualismo
associal;
(iii)
universalismo;
(iv)
neutralidade
liberal;
(v)
subjetivismo
latente; e
(vi)
tensão
entre autonomia individual e esfera pública.
Com
efeito, a educação é parte desse mote de questões associadas à crítica
comunitarista do liberalismo, ainda que o número de trabalhos dedicados ao tema
não seja tão numeroso em relação às demais temáticas. A educação, por óbvio, ocupa
um espaço muito maior nas teorias comunitaristas do que nas liberais, as quais
defendem uma concepção bem mais restrita de educação, quando defendem – é o
caso, aqui, da teoria de Nozick, que não a engloba, mas não de Rawls e
Ackerman, que a mencionam.
Não obstante, na
visão comunitarista, a educação está associada à transmissão de uma herança
cultural através da qual, calcada numa concepção de comunidade que age
ativamente na constituição da identidade pessoal, percebem-se obrigações
fundamentais em vista de um bem comum. Nesse sentido, são três pontos especiais
eu se podem elencar, a saber:
(i) a
cidadania comunitarista;
(ii) o
currículo comum; e
(iii) uma
agenda comunitarista, de tarefas mais pontuais, para a educação.
Quanto
ao primeiro ponto, a cidadania comunitarista implica o envolvimento de cada
qual dos indivíduos na sua vida política, posto que é através desse
envolvimento que se realiza plenamente. Quanto ao segundo ponto, especialmente
com base em Walzer, argumentou-se a respeito de um currículo comum o qual valoriza
os valores e as tradições da comunidade ou grupo social, os quais são, por sua
vez, a base dos direitos liberais. Entendeu-se que uma base curricular comum
bem articulada valoriza as tradições comunitárias e promove a participação na
vida política, como extensão da vida comunitária. Já o último ponto é referente
às principais implicações, em termos de instituição escolar e educacional, para
a educação, no sentido de uma agenda comunitarista. Estes pontos foram
sintetizados em oito afirmações, vale dizer:
(i) a
família deve ser a educadora moral primária da criança;
(ii) a
educação do caráter inclui o ensino sistemático de virtudes na escola;
(iii) o
ethos comunitário tem uma função
educativa na vida escolar;
(iv) as
escolas devem promover os direitos e as responsabilidades inerentes à
democracia;
(v) o
serviço comunitário é uma parte de relevo da criança na escola;
(vi) o
maior propósito do currículo escolar é ensinar as habilidades necessárias à
participação na vida política e social;
(vii) as escolas devem promover o entendimento ativo
do bem comum; e, por fim,
(viii) as escolas religiosas são capazes de promover
uma versão da perspectiva comunitarista de educação.
É dessa forma, em
pontos sumários, que a educação pode ser vista no debate entre liberais e
comunitaristas. Os efeitos para a educação são profundos e ainda estão sendo
avaliados. Mas, é certo, inicialmente foi capaz de fazer com teorias liberais,
de inclinação igualitarista, dessem um espaço maior para a educação.
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