segunda-feira, 14 de julho de 2025

O Gosto em Kant

 

A menos estudada das três Críticas de Kant é, certamente, a Crítica da Faculdade do Juízo.[1] Desde que estava a escrever a Crítica da Razão Prática, Kant manifestava o desejo de escrever uma crítica sobre o gosto.[2] Contudo, ao que tudo indica, entre 1788 e 1789, resolveu ampliar o escopo e escrever uma crítica sobre a faculdade de julgar, da qual o juízo do gosto e o gosto são uma parte, e que examinaria criticamente a faculdade humana de sentir prazer (TERRA, 1995; SCHAPER, 2009, p. 441). E, como sugere Höffe (2005), apesar das abundantes críticas à concepção teleológica em favor de uma mecanicista, o que é característico das teorias modernas, Kant confere um lugar especial ao pensamento orientado por fins. Com efeito,

 

[...] o pensar em conceitos de fim forma uma parte integral da crítica transcendental da razão. De um lado, Kant destaca consequentemente o caráter meramente subjetivo de juízos teleológicos; de outro, esses juízos encontram-se em todos os escritos principais. Na Crítica da Razão Pura, a teoria das ideias regulativas está comprometida com o fim racional de um conhecimento absolutamente completo. À base da doutrina dos postulados da Crítica da Razão Prática encontra-se a ideia teleológica de uma unidade do merecimento de ser feliz e felicidade. Na Filosofia do Direito e da História, Kant vê o fim terminal (“sentido”) da história na paz perpétua. Todavia, Kant alcança o ponto alto de seu pensamento teleológico na Crítica da Faculdade de Julgar (HÖFFE, 2005, p. 292).

 

A Crítica da Faculdade do Juízo (2008) é uma obra na qual Kant desenvolve, entre outras coisas, a sua concepção estética, assim como desenvolve, a luz da Crítica da Razão Pura e da Crítica da Razão Prática, a interconexão entre a filosofia teórica e a filosofia prática, ligação entre natureza e moral: “Ela efetua também a fundamentação transcendental de dois âmbitos tão díspares, como o mundo do belo e do sublime, da arte e do gênio, de um lado, e do mundo do orgânico e da unidade dinâmica de toda a natureza, de outro” (HÖFFE, 2005, p. 294). Esses conceitos traduzem uma concepção própria da dimensão estética que, apesar de hoje não ser tão estudada, é absolutamente original e fértil.

Kant trata do tema do gosto na Crítica da Faculdade do Juízo (2008), a qual surge como uma reflexão sobre o estado subjetivo que permite chamar de belo um objeto. Na nota 19, quando trata do juízo do gosto, segundo a qualidade, Kant esclarece o que entende por gosto e justifica o seu uso. Segundo o filósofo,

 

A definição do gosto, posta aqui a fundamento, é de que ele é a faculdade de ajuizamento <beurteilung> do belo. O que porém é requerido para denominar um objeto belo tem que a análise dos juízos de gosto descobri-lo. Investiguei os momentos, aos quais esta faculdade do juízo em sua reflexão presta atenção, segundo orientação das funções lógicas para julgar (pois no juízo de gosto está sempre contida ainda uma referência ao entendimento) (KANT, 2008, p. 47, n. 19).[3]

 

Num contexto mais amplo, a introdução da questão do gosto está relacionada ao problema da beleza e do gênio na estética kantiana. Desde o início, Kant esclarece que o gosto não é uma faculdade produtiva – que está presente no gênio o qual cria objetos que podem ser chamados de belos –, já que, de fato, efetivamente não cria nada; sua função é especificamente a de ser uma faculdade de julgamento. Schaper esclarece brevemente o que é o gosto para Kant. De acordo com a autora,

 

O gosto, para Kant, é a habilidade de “estimar” o belo, e o exercício dessa habilidade é o juízo de gosto. O que são os juízos de gosto e quais as condições para localizar o belo são, assim, aspectos ou “momentos” da mesma coisa a ser explicada (SCHAPER, 2009, p. 445).

 

De fato, quando Kant inferia a sua interpretação do que é o belo, de acordo com a qualidade, o primeiro momento, ele afirmou que “Gosto é a faculdade de ajuizamento de um objeto ou de um modo de representação mediante uma complacência ou descomplacência independente de todo interesse. O objeto de uma tal complacência chama-se belo” (KANT, 2008, §5, p. 55, o itálico corresponde ao original). Nesse sentido, pode-se entender que um dos sentidos de complacência é a satisfação. Disso se segue que, para Kant, pode-se entender assim, o gosto é a faculdade de julgar um objeto ou um modo de representação por uma satisfação ou insatisfação inteiramente independente de todo e qualquer interesse. É a ideia da satisfação desinteressada, portanto.

Um aspecto bastante controverso na Crítica da Faculdade do Juízo (2008) diz respeito à universalidade e à subjetividade do juízo de gosto. Os juízos estéticos contêm uma notável tensão nos termos tais que não são suscetíveis de prova e, não obstante, como explica Höffe, reclamam ser universalmente compreensíveis e vinculantes para qualquer um (HÖFFE, 2005, p. 299). Sobre ele, Kant afirma,

 

O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento, por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjetivo. Toda referência das representações, mesmo a das sensações, pode, porém, ser objetiva (e ela significa então o real de uma representação empírica); somente não pode sê-lo a referência ao sentimento de prazer e desprazer, pelo qual não é designado absolutamente nada no objeto, mas no qual o sujeito sente-se a si próprio do modo como ele é afetado pela sensação (KANT, 2008, §5, p. 48).

 

De fato, diferentemente das asserções científicas e morais, os juízos estéticos não possuem uma universalidade objetiva, mas, inversamente, uma universalidade subjetiva. No sentimento subjetivo do eu da experiência estética, insiste Höffe, está contido ao mesmo tempo um sentimento universal de mundo e de vida, de forma que a problemática do estético aguça-se na questão de como a subjetividade pode vincular-se com a pretensão de universalidade e necessidade (HÖFFE, 2005, p. 299-300). Mais especificamente,

 

Visto que a faculdade de julgar estética é subjetiva mas reflexiva, o universal não lhe é dado previamente. Em oposição a toda estética da obra, que torna a obra de arte portadora de uma verdade objetiva vista sensivelmente, segundo Kant o comprazimento estético resulta não da perfeição, da conformidade a fins interior objetivamente existente, de uma coisa. Não o objeto mesmo é belo em seu aspecto ou forma; “belo” não é nenhum predicado objetivo, mas um predicado relativo. E, em verdade, a referência estética parte do sujeito; ela se deve a uma realização criativa, à representação estética do objeto no sujeito (HÖFFE, 2005, p. 301).

 

Assim, o gosto não é, em sentido kantiano, uma faculdade puramente subjetiva, já que é a legalidade de um entendimento com certa universalidade, a qual se refere à obtenção do prazer diante do belo. Esta universalidade não é, por sua vez, determinada segundo conceitos. Contrariamente, ela é o resultado de uma harmonia livre e indeterminada. Dessa forma, o gosto é mais bem entendido como sendo expresso numa universalidade subjetiva.



[1] Acerca da primeira parte da Crítica Faculdade do Juízo, chamada de Crítica da Faculdade de Juízo Estética (2008, p. 45-200), e que se resolve numa crítica do gosto e da arte em sentido transcendental, Hoffe expressa, acertadamente, que tal crítica surgiu da descoberta do a priori estético por parte de Kant. Segundo Hoffe, “Ela contém uma crítica de segundo nível. Nela não são investigados juízos estéticos, e sim o direito de um julgar crítico no âmbito estético. O a priori, que Kant aqui afirma, é de espécie diferente do a priori da primeira e da segunda Crítica. Pois a posição estética em relação ao objeto, ao belo na natureza, ao belo artístico e ao sublime é diversa da posição teórica e da posição prática. Na referência estética ao mundo, encontra-se uma forma própria de racionalidade; de modo algum ela se deixa reduzir ao conhecimento objetivo ou à moralidade ou a ambos em conjunto” (HÖFFE, 2005, p. 298).

[2] A abordagem que aqui se faz diz respeito meramente ao gosto. A teoria estética kantiana é imensamente complexa e rica em detalhes, os quais escapam os propósitos do presente texto. Para uma visão mais ampla da estética kantiana, recomenda-se: GUYER, Paul. Kant and the Claims of Taste. 2ª Ed. New York: Cambridge University Press, 1997; outras fontes serão sugeridas ao longo da seção.

[3] Na Crítica da Faculdade do Juízo (2008), Kant explora o juízo do gosto a partir de quatro momentos, que são as quatro funções lógicas do juízo, conforme as encontrara na Crítica da Razão Pura (2010), e que são, pois, a qualidade, a quantidade, a relação e a modalidade – proporcionando uma quádrupla determinação do belo. Recomenda-se, sobre esse ponto na terceira Crítica, ver: SCHAPER, 2009, especialmente, p. 445-60; CRAWFORD, 2001, p. 52-7.