A
tese sênior de Rawls, descoberta recentemente, é um escrito revelador de uma
personalidade religiosa que se estabelece no horizonte relacional. No interior
das discussões teológicas do início do século XX, principalmente aquela do movimento protestante neo-ortodoxo, que sofre forte influência do pensamento
de pensador judeu Martin Buber, mas que se manifesta principalmente em Emil Brunner
e Karl Barth (principalmente o primeiro, no caso de Rawls), A Brief Inquiry é um escrito que
demonstra o zelo em prol da defesa de uma concepção calcada na relação entre personalidade,
comunidade, natureza e Deus, contra certa concepção naturalista que, segundo Rawls,
é defendida na filosofia especialmente por Agostinho e, inclusive, por Tomás de
Aquino.
Falando
sobre as ideias de personalidade, comunidade e Deus, sendo este último contrastado
com um escrito sobre a sua posição acerca da religião, já no final da vida,
chamado On My Religion, no qual
desenvolve uma interessante discussão a partir do Colloquium
Heptaplomeres De Rerum Sublimium Arcanis Abditis (ou apenas Colloquium) de Bodin. A despeito da concepção de personalidade, Rawls a
identifica, no interior do cristianismo, com os conceitos de alma e espírito. No entanto, a sua formação dá-se a partir de uma vivência
realizada em comunidade.
Quanto
ao conceito de comunidade, o autor predica que, num entendimento amplo, o
próprio universo pode ser visto como uma grande comunidade, na qual se
relacionam Criador e criatura. Mas quanto aos seres humanos, é verdade que
apenas em seu interior é que se forma a sua personalidade. Na verdade, sem a
personalidade não existe uma comunidade. Não obstante não indicar as
instituições básicas formadoras dessa comunidade, Rawls estabelece que existem
deveres e obrigações, evidentemente calcadas em sólidas bases, como a da
confiança. Aqui, aponta para a rejeição do mérito, que aparecerá em A Theory of Justice.
Já
a respeito de Deus, Rawls postula a existência de um Deus tal e qual a Bíblia
sugere. Essa suposição se dá a partir do que o autor chama razões para que se
suponha que Ele exista, as quais, evidentemente, não estão assentadas em bases
empíricas, diferentemente do que afirma a respeito da personalidade e da
comunidade [RAWLS, John. A Brief Inquiry into the Meaning of Sin and Faith (Org. Thomas Nagel). Cambridge, Massachusetts, and London, England, 2009, p. 113]. No entanto, em On My Religion, já na velhice, Rawls desloca a sua crença num Deus
como o concebe o cristianismo personalista para um teísmo, o qual afirma a
existência de Deus, mas nega a sua importância moral (embora afirme que a razão
prática divina seja semelhante à humana, de tal modo que os julgamentos de
razoabilidade prática sejam semelhantes). Nesse sentido, se estabelece uma
discussão sobre a compatibilização dessa posição, em termos políticos, com a fé
religiosa. Da posição defendida por Rawls, afirma-se a necessidade de
tolerância para os não teístas e, inclusive, para os ateus, tendo em vista que,
em matéria religiosa, o que se pune não é a crença, mas as ações. No entanto,
percebe-se que não se afirma um relativismo, o qual sustente que tudo seja
possível.
Uma
última palavra deve ser dada sobre a conexão desse texto com aqueles mais
prestigiados do autor. Como se sabe, A
Theory of Justice é obra de fôlego que procura responder, no contexto de
uma democracia constitucional, ao conflito e à divergência no que se referem às
questões morais, muitas das quais de caráter religioso, oferecendo uma
alternativa ao utilitarismo para a atribuição de direitos e deveres. Sua
importância e prestígio foram prontamente reconhecidos pela crítica
especializada e louvados pelos mais respeitados pensadores, é verdade que não
sem duras críticas. Political Liberalism,
em certo sentido, dá continuidade a questões semelhantes, mas preocupa-se
fundamentalmente com a questão da estabilidade, oriunda do fato do pluralismo
razoável, mas marcadas por divergências sérias, muitas das quais
irreconciliáveis, provenientes de convicções morais e religiosas.
O
liberalismo professado por Rawls, de algum modo, é ancorado nos pressupostos
afirmados já na senior thesis. Sendo
assim, uma das grandes curiosidades que a descoberta de A Brief Inquiry proporciou foi a da conexão entre temas da obra
madura liberal com aqueles que o autor tratava na senior thesis. Entre os pontos de contato, Cohen e Nagel destacam
principalmente os seguintes:
i) o endosso de uma teoria moral definida por
relações interpessoais e não em função da busca do bem maior;
ii) a insistência
na importância da singularidade das pessoas, de modo que a comunidade moral ou
comunidade de fé seja uma relação entre indivíduos distintos;
iii) a rejeição
do conceito de sociedade como um contrato o um pacto entre indivíduos egoístas;
iv) a condenação da desigualdade baseada na exclusão e na hierarquia; e
v) a
rejeição da ideia de mérito [COHEN, Joshua. & NAGEL, Thomas. Introdution. In: RAWLS, John. A Brief Inquiry into the Meaning of Sin and
Faith (Org. Thomas Nagel).
Cambridge, Massachusetts, and London, England, 2009, p. 07].
Como
termo final, cabe reforçar que Rawls procurou assumir seriamente as questões
religiosas, as quais eram vistas como muito positivas. Se não logrou uma
completa conciliação dessas doutrinas no interior de uma democracia
constitucional, o que é controverso, certamente seus escritos são imprescindíveis
para que tal projeto seja realizado, cedo ou tarde.