Walzer
tem sido com frequência associado ao comunitarismo. Ele, de fato, desenvolve
uma crítica ácida ao modo como o liberalismo, ao dar ênfase às abstrações e à
universalidade, incorre na defesa de uma visão da justiça que se traduz na
igualdade simples. Nesse sentido, sua defesa da igualdade complexa é uma
resposta ao liberalismo, em geral, e ao de Rawls, em particular, que encontra
seus princípios de justiça mediante um procedimento de abstração que é a
posição original.
Gargarella expressa muito bem essa
forma de entender walzeriana, nos seguintes termos:
Walzer
defende uma noção “complexa” de igualdade, segundo a qual cada bem deve ser
distribuído de acordo com seu próprio significado, que se contrapõe a uma ideia
“simples” de igualdade, segundo a qual o que a justiça requer é a melhor
distribuição de algum bem determinado (Gargarella, 2008, p. 151).
A crítica comunitarista walzeriana ao
liberalismo tem algumas características. Walzer não
rejeita, como parece ser o caso de outros pensadores comunitaristas, tais quais
MacIntyre e Sandel, os valores e os ideiais do liberalismo. Sua crítica se estabelece no sentido
de que, de tempos em tempos, o liberalismo precisa de corretivos.
Nesse caso, o comunitarismo representaria uma correção na direção da
valorização das comunidades no interior das quais há elementos que implicam
numa diversidade de percepções quanto à constituição da identidade.
Essa forma de ver
a crítica comunitarista do liberalismo é coerente com a teoria da justiça
plural da igualdade complexa, pois, de acordo com esta, não existe um único
critério distributivo para toda a sociedade, mas, considerando que a sociedade
é caracterizada pela existência de muitas esferas, cada esfera de justiça
determina, conforme o tempo e a relação que se estabelecem entre as pessoas,
diferentes critérios e princípios para a distribuição daqueles que são bens
sociais importantes para as mesmas. Assim, a justiça não pode ser abstrata e
universal, mas deve ser plural e contextual, conforme uma igualdade complexa. A
injustiça estaria no monopólio de um bem de uma esfera específica sobre outra
esfera.
No que
se refere à educação, defende-se que, para Walzer, ela é uma
das esferas de justiça responsáveis pela distribuição de bens educacionais. A
educação, e aqui se considera a escola especialmente, tem uma função social
essencial. Nesse sentido, antes de uma formação especializada para o mercado de
trabalho, a escolar deve conduzir a uma formação para a cidadania, a qual se
leva a efeito mediante um conteúdo específico determinado por um currículo
comum. Trata-se de uma educação democrática que se caracteriza pela não
interferência dos critérios distributivos de outras esferas e pela ênfase na
cidadania. Por essa razão, a escola age como uma instituição intermediária
entre a família – e o pluralismo que ela encerra – e o Estado, como expressão
da vida política: ela prepara as crianças para a cidadania e para o respeito às
diferentes comunidades presentes em seu interior.
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Para mais, sugere-se o artigo que deu
causa a essa discussão:
ROHLING, Marcos. A Crítica Comunitarista do
Liberalismo e a Educação em Walzer. Revista
Dissertatio de Filosofia, v. 50, p. 177-201, 2019, que está disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/dissertatio/article/view/16504