sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Brief Inquiry e a Religião em Rawls

A tese sênior de Rawls, descoberta recentemente, é um escrito revelador de uma personalidade religiosa que se estabelece no horizonte relacional. No interior das discussões teológicas do início do século XX, principalmente aquela do movimento protestante neo-ortodoxo, que sofre forte influência do pensamento de pensador judeu Martin Buber, mas que se manifesta principalmente em Emil Brunner e Karl Barth (principalmente o primeiro, no caso de Rawls), A Brief Inquiry é um escrito que demonstra o zelo em prol da defesa de uma concepção calcada na relação entre personalidade, comunidade, natureza e Deus, contra certa concepção naturalista que, segundo Rawls, é defendida na filosofia especialmente por Agostinho e, inclusive, por Tomás de Aquino.
Falando sobre as ideias de personalidade, comunidade e Deus, sendo este último contrastado com um escrito sobre a sua posição acerca da religião, já no final da vida, chamado On My Religion, no qual desenvolve uma interessante discussão a partir do Colloquium Heptaplomeres De Rerum Sublimium Arcanis Abditis (ou apenas Colloquium) de Bodin. A despeito da concepção de personalidade, Rawls a identifica, no interior do cristianismo, com os conceitos de alma e espírito. No entanto, a sua formação dá-se a partir de uma vivência realizada em comunidade.
Quanto ao conceito de comunidade, o autor predica que, num entendimento amplo, o próprio universo pode ser visto como uma grande comunidade, na qual se relacionam Criador e criatura. Mas quanto aos seres humanos, é verdade que apenas em seu interior é que se forma a sua personalidade. Na verdade, sem a personalidade não existe uma comunidade. Não obstante não indicar as instituições básicas formadoras dessa comunidade, Rawls estabelece que existem deveres e obrigações, evidentemente calcadas em sólidas bases, como a da confiança. Aqui, aponta para a rejeição do mérito, que aparecerá em A Theory of Justice.
Já a respeito de Deus, Rawls postula a existência de um Deus tal e qual a Bíblia sugere. Essa suposição se dá a partir do que o autor chama razões para que se suponha que Ele exista, as quais, evidentemente, não estão assentadas em bases empíricas, diferentemente do que afirma a respeito da personalidade e da comunidade [RAWLS, John. A Brief Inquiry into the Meaning of Sin and Faith (Org. Thomas Nagel). Cambridge, Massachusetts, and London, England, 2009, p. 113]. No entanto, em On My Religion, já na velhice, Rawls desloca a sua crença num Deus como o concebe o cristianismo personalista para um teísmo, o qual afirma a existência de Deus, mas nega a sua importância moral (embora afirme que a razão prática divina seja semelhante à humana, de tal modo que os julgamentos de razoabilidade prática sejam semelhantes). Nesse sentido, se estabelece uma discussão sobre a compatibilização dessa posição, em termos políticos, com a fé religiosa. Da posição defendida por Rawls, afirma-se a necessidade de tolerância para os não teístas e, inclusive, para os ateus, tendo em vista que, em matéria religiosa, o que se pune não é a crença, mas as ações. No entanto, percebe-se que não se afirma um relativismo, o qual sustente que tudo seja possível.
Uma última palavra deve ser dada sobre a conexão desse texto com aqueles mais prestigiados do autor. Como se sabe, A Theory of Justice é obra de fôlego que procura responder, no contexto de uma democracia constitucional, ao conflito e à divergência no que se referem às questões morais, muitas das quais de caráter religioso, oferecendo uma alternativa ao utilitarismo para a atribuição de direitos e deveres. Sua importância e prestígio foram prontamente reconhecidos pela crítica especializada e louvados pelos mais respeitados pensadores, é verdade que não sem duras críticas. Political Liberalism, em certo sentido, dá continuidade a questões semelhantes, mas preocupa-se fundamentalmente com a questão da estabilidade, oriunda do fato do pluralismo razoável, mas marcadas por divergências sérias, muitas das quais irreconciliáveis, provenientes de convicções morais e religiosas.
O liberalismo professado por Rawls, de algum modo, é ancorado nos pressupostos afirmados já na senior thesis. Sendo assim, uma das grandes curiosidades que a descoberta de A Brief Inquiry proporciou foi a da conexão entre temas da obra madura liberal com aqueles que o autor tratava na senior thesis. Entre os pontos de contato, Cohen e Nagel destacam principalmente os seguintes: 
i) o endosso de uma teoria moral definida por relações interpessoais e não em função da busca do bem maior; 
ii) a insistência na importância da singularidade das pessoas, de modo que a comunidade moral ou comunidade de fé seja uma relação entre indivíduos distintos; 
iii) a rejeição do conceito de sociedade como um contrato o um pacto entre indivíduos egoístas; 
iv) a condenação da desigualdade baseada na exclusão e na hierarquia; e 
v) a rejeição da ideia de mérito [COHEN, Joshua. & NAGEL, Thomas. Introdution. In: RAWLS, John. A Brief Inquiry into the Meaning of Sin and Faith (Org. Thomas Nagel). Cambridge, Massachusetts, and London, England, 2009, p. 07].
Como termo final, cabe reforçar que Rawls procurou assumir seriamente as questões religiosas, as quais eram vistas como muito positivas. Se não logrou uma completa conciliação dessas doutrinas no interior de uma democracia constitucional, o que é controverso, certamente seus escritos são imprescindíveis para que tal projeto seja realizado, cedo ou tarde.

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