sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Observações Teórico-metodológicas sobre “Os Herdeiros” e “A Profissão de Sociólogo”

 

Les Héritiers (Os Herdeiros) é um marco na sociologia da educação que propõe no pleno sentido de Kuhn, um novo paradigma para a pesquisa e produção sociológica. Através de pesquisas empíricas que manejavam as enquetes e os dados recolhidos, enviesou uma conclusão muito distinta do otimismo até então professados quanto ao sistema de educação francês. É nesse sentido que se pode afirmar ser um trabalho que é claramente ligado à crítica política e social sem perder o status de cientificidade. Tal concepção de ciência, por sua vez, foi posta, clara e evidentemente, em Le Métier de Sociologue (A Profissão de Sociólogo), obra na qual as principais qualidades do sociólogo são aquelas de romper com o senso comum e, ao mesmo tempo, construir o fato social, numa clara vinculação à epistemologia de Bachelard, que propõe a inversão do vetor: não é a teoria que determina o real, mas o real que determina a teoria.

A par disso e com o propósito de levar tal análise a cabo, pode-se pensar numa organização em três partes. A primeira delas arvora-se na direção de tracejar as diferenças entre o projeto de Bourdieu e Passeron em relação àquele de Durkheim no que se refere à compreensão tanto da educação como da escola. Para Durkheim, a escola é uma instância institucional integradora e socializadora fundamental para a sociedade. Inversamente, embora os autores retomem a centralidade da escola nos mecanismos de reprodução das estruturas sociais, esta instituição é responsável por perpetuar as desigualdades pregressas dos estudantes por basear-se em critérios que resultam exacerbadores do privilegio cultural. Dessa forma, a escola nada mais faz do que avaliar a partir de elementos os quais já estão culturalmente presentes em estudantes cuja vivência familiar permite que tenham acesso à ambientes requintados e formadores do bom gosto.

A segunda parte, por sua vez, procura recuperar as influências teóricas que estavam presentes no meio sociológico francês em meados do século XX. Em vista disso, recupera-se os principais traços da sociologia francesa da educação, após a queda da influência da tradição durkheimiana até os anos que antecederam a produção de Les Héritiers. Deu-se especial atenção para a corrente estrutural-funcionalista, que tem em Parsons seu mais renomado defensor. Parsons ofertou uma concepção de sociedade que implicava o exercício equilibrado de funções para a estabilidade e sobrevida social. À educação cumpriria, assim, a função de socialização e integração social, através da qual se formavam os agentes que, em igualdade de condições, disputariam as funções hierarquicamente mais nobres socialmente.

Na terceira parte, que pode ser dividida em outras duas, explana-se, em primeiro lugar, acerca das principais características teóricas e metodológicas de Les Héritiers. Nesse sentido, argumentou-se sobre os aspectos que favoreceram a recepção do livro, notadamente, a dimensão da estrutura intelectual que, como Gremion sugeriu, dialoga diversamente com Weber, Marx e Dourkheim. Além disso, apontam-se nessa parte algumas teses presentes no interior da obra. Na segunda subparte, por fim, argumenta-se sobre a concepção de ciência que se encontra radicada nas duas obras. O paradigma que se afirma estar presente em Les Héritiers é o modus operandi formulado a posto a manifesto em Le Métier de Sociologue. É uma concepção, conforme evidenciado, que rompe com o senso comum e, opondo-se ao empirismo, muito presente na metodologia positivista, propõe que o fato social seja construído. Dessa feita, estabelece-se uma vinculação entre as duas obras na direção da concepção de ciência. Além disso, embora Bourdieu e Passeron tenham se afastado a partir do início da década de 70, pode-se ver como claramente identitária das trajetórias individuais posteriores esse momento, tanto em relação à concepção de ciência, quanto no que diz respeito à formulação das categorias epistemológicas e sociológicas.

 

Referências Bibliográficas

 

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DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. 4ª. Ed. Petrópolis: Vozes 2011.

DURKHEIM, Émile. L’Éducation Morale. Paris: Éditions Fabert, 2005.

DURKHEIM, Émile. O Ensino da Moral na Escola Primaria. Novos Estudos Cebrap, 78:61-75, 2007.

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WEBER, Louis. Les Héritiers et La Reproduction dans lês Débats dês Années 60-70. Savoir/agir, n°17, Éditions du Croquant, p. 21-32, septembre, 2011.

 

 

Para a discussão mais ampla, na qual essa conclusão se insere, remete-se ao texto:

 

ROHLING, Marcos. A constituição de um novo paradigma das ciências sociais. Observações teórico-metodológicas sobre “Les Héritiers”. Linhas (Florianópolis. Online), v. 15, p. 270-296, 2014; e

 

ROHLING, Marcos. A Constituição de um Novo Paradigma das Ciências Sociais. Observações Teórico-metodológicas sobre 'Les Héritiers'. In: SANTOS, Tiago Ribeiro; SILVA, Vera Lúcia G.; VALLE, Ione R.; CATANI, Denise B.. (Org.). Heranças da Sociologia de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron: 50 anos de Os Herdeiros. 1ª. Ed. Curitiba: CRV, 2015, p. 270-296.

 

O artigo se encontra disponível em:

 

https://www.periodicos.udesc.br/index.php/linhas/article/view/1984723815292014270

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

A Educação na Teoria Moral de MacIntyre

 

MacIntyre tem uma obra extensa e multifacetada dirigida particularmente à crítica ao liberalismo, à privatização do bem e aos elementos do projeto iluminista de justificação da moralidade, cujo fracasso está associado ao emotivismo. Em seu bojo, com efeito, têm passagens e, inclusive, trabalhos que permitem uma compreensão do que seja a educação. É claro que, no contexto mais amplo, as ideias do autor endossam um retorno à ética aristotélico-tomista, a qual se caracteriza especialmente nos conceitos de prática, unidade narrativa de uma vida, tradição e virtude. De fato, o pensador escocês busca reabilitar a ética aristotélico-tomista como uma alternativa para os problemas morais do mundo contemporâneo.

Com efeito, ainda que MacIntyre não seja um filósofo da educação, especialmente nas últimas décadas ele tem pensado na educação como desdobramento da reflexão moral – é verdade, há um número bastante grande de teóricos que tem buscado estabelecer uma correlação entre a teoria do filósofo e a educação, como já se indicou (AMAYA & SÁNCHEZ MIGALLÓN, 2011; ARRIOLA, 2000; DUNNE, 2014; KEENEY, 2007; MARADIAGA CÉZAR, 2008 e MURPHY, 2013). Desde essa perspectiva moral, a configuração que o autor dá a ela a circunscreve como uma iniciação nas práticas, isto é, como um meio para a realização das práticas, as quais, por sua vez, dão-se apenas tendo as tradições como referência. Nesse horizonte, a educação, em si mesma, não é uma prática, mas um conjunto de habilidades que orbitam as diferentes formas de práticas sociais, dentro das quais se realiza o florescimento humano.

Todavia, é possível dizer que o propósito da existência de instituições educacionais é claramente precisável para o filósofo: a criação de um público educado. É justamente esse público bem educado que promoverá, como resultado da educação, o direcionamento do estudante a caracterização de uma função social no interior da sua sociedade – a escolha por um ofício ou atividade laboral –, bem como ao pensamento e a reflexão autônomas. Além disso, conforme se mostrou, a constituição de um público bem educado é possível apenas quando reunidas as seguintes condições, a saber: (i) a existência de um conjunto razoavelmente amplo de indivíduos educados no hábito e na possibilidade de organizar um debate racional, a cujo veredito apelam os intelectuais protagonistas; (ii) o consenso a respeito de parâmetros invocados para julgar o erro e o acerto das argumentações; (iii) o compartilhamento de amplo espectro de crenças e ações, formadas pela leitura originada de uma compilação comum de textos, os quais são vistos como tendo um status canônico e autêntico dentro dessa comunidade concreta (MACINTYRE, 1991, p. 120-3). Ora, a existência de um público educado propicia a existência de um modelo compartilhado de justificação racional ao qual a educação deve conduzir.

Não obstante, para que exista, é necessário, também, que a educação se comprometa em termos de um rol de conteúdos e que o currículo da educação esteja direcionado às formas de atividade e de conhecimento como fins em si mesmas (atividades que não possuem caráter instrumental ou externo), pois que assim se permite ao aluno buscar o que é realmente importante, através do desenvolvimento das capacidades humanas, que é a vida boa, o que se dá numa relação com a comunidade. Um tal modelo se estabelece como uma forma de educação liberal por valorizar o conhecimento como tendo valor por si próprio. Também, finalizando, a universidade está especialmente vinculada à construção de uma teoria da ação humana inteligível. Para o pensador, a principal tarefa da universidade é oferecer os horizontes e a construção das bases daquele modelo compartilhado de justificação racional, pois, assim, pode agir na resolução dos problemas da moralidade contemporânea, bem como traduzir-se na educação para as virtudes.

Como se nota, finalmente, as ideais de MacIntyre, no tocante à educação, não pretendem construir uma visão separada do campo educacional, mas se colocam, como ele mesmo indicou a respeito da educação no pensamento de Tomás de Aquino, como caudatárias de uma variedade de outras áreas e disciplinas (práticas, nos termos de MacIntyre): sem esse contexto argumentativo ao qual pertence as discussões educacionais, não há formas de as conclusões educacionais serem inteligíveis (MACINTYRE, 2005, p. 94). Portanto, desde o pensamento do filósofo escocês, a educação não é um campo separado de ideias, mas está vinculada à sua reflexão sobre a moralidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMAYA, Amaya, J. M. G. y SÁNCHEZ MIGALLÓN, S. Diagnóstico de la Universidad en Alasdair MacIntyre. Pamplona: EUNSA, 2011.

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MURPHY, James B. The Teacher as the Forlorn Hope of Modernity: MacIntyre on Education and Schooling. Revue Internationale de Philosophie. Vol. 264. Nº 2, p. 183-199, January, 2013.

MURPHY, Mark. Alasdair MacIntyre. Cambridge: Cambridge Press, 2003.

TORRE DÍAZ, F. J. Alasdair MacIntyre: ¿Un Crítico del Liberalismo? Madrid: Dykinson, 2005.

 

 

Para uma reflexão a respeito do contexto mais amplo das ideias aqui trabalhadas, remete-se ao texto:

 

ROHLING, Marcos. Formação Moral, Florescimento Humano e Público Educado. A Educação na Teoria Moral de MacIntyre. Educação e Filosofia (UFU. IMPRESSO), v. 32, p. 1-20, 2018, que se encontra disponível em:

 

https://seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/46615