quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

A Educação na Teoria Moral de MacIntyre

 

MacIntyre tem uma obra extensa e multifacetada dirigida particularmente à crítica ao liberalismo, à privatização do bem e aos elementos do projeto iluminista de justificação da moralidade, cujo fracasso está associado ao emotivismo. Em seu bojo, com efeito, têm passagens e, inclusive, trabalhos que permitem uma compreensão do que seja a educação. É claro que, no contexto mais amplo, as ideias do autor endossam um retorno à ética aristotélico-tomista, a qual se caracteriza especialmente nos conceitos de prática, unidade narrativa de uma vida, tradição e virtude. De fato, o pensador escocês busca reabilitar a ética aristotélico-tomista como uma alternativa para os problemas morais do mundo contemporâneo.

Com efeito, ainda que MacIntyre não seja um filósofo da educação, especialmente nas últimas décadas ele tem pensado na educação como desdobramento da reflexão moral – é verdade, há um número bastante grande de teóricos que tem buscado estabelecer uma correlação entre a teoria do filósofo e a educação, como já se indicou (AMAYA & SÁNCHEZ MIGALLÓN, 2011; ARRIOLA, 2000; DUNNE, 2014; KEENEY, 2007; MARADIAGA CÉZAR, 2008 e MURPHY, 2013). Desde essa perspectiva moral, a configuração que o autor dá a ela a circunscreve como uma iniciação nas práticas, isto é, como um meio para a realização das práticas, as quais, por sua vez, dão-se apenas tendo as tradições como referência. Nesse horizonte, a educação, em si mesma, não é uma prática, mas um conjunto de habilidades que orbitam as diferentes formas de práticas sociais, dentro das quais se realiza o florescimento humano.

Todavia, é possível dizer que o propósito da existência de instituições educacionais é claramente precisável para o filósofo: a criação de um público educado. É justamente esse público bem educado que promoverá, como resultado da educação, o direcionamento do estudante a caracterização de uma função social no interior da sua sociedade – a escolha por um ofício ou atividade laboral –, bem como ao pensamento e a reflexão autônomas. Além disso, conforme se mostrou, a constituição de um público bem educado é possível apenas quando reunidas as seguintes condições, a saber: (i) a existência de um conjunto razoavelmente amplo de indivíduos educados no hábito e na possibilidade de organizar um debate racional, a cujo veredito apelam os intelectuais protagonistas; (ii) o consenso a respeito de parâmetros invocados para julgar o erro e o acerto das argumentações; (iii) o compartilhamento de amplo espectro de crenças e ações, formadas pela leitura originada de uma compilação comum de textos, os quais são vistos como tendo um status canônico e autêntico dentro dessa comunidade concreta (MACINTYRE, 1991, p. 120-3). Ora, a existência de um público educado propicia a existência de um modelo compartilhado de justificação racional ao qual a educação deve conduzir.

Não obstante, para que exista, é necessário, também, que a educação se comprometa em termos de um rol de conteúdos e que o currículo da educação esteja direcionado às formas de atividade e de conhecimento como fins em si mesmas (atividades que não possuem caráter instrumental ou externo), pois que assim se permite ao aluno buscar o que é realmente importante, através do desenvolvimento das capacidades humanas, que é a vida boa, o que se dá numa relação com a comunidade. Um tal modelo se estabelece como uma forma de educação liberal por valorizar o conhecimento como tendo valor por si próprio. Também, finalizando, a universidade está especialmente vinculada à construção de uma teoria da ação humana inteligível. Para o pensador, a principal tarefa da universidade é oferecer os horizontes e a construção das bases daquele modelo compartilhado de justificação racional, pois, assim, pode agir na resolução dos problemas da moralidade contemporânea, bem como traduzir-se na educação para as virtudes.

Como se nota, finalmente, as ideais de MacIntyre, no tocante à educação, não pretendem construir uma visão separada do campo educacional, mas se colocam, como ele mesmo indicou a respeito da educação no pensamento de Tomás de Aquino, como caudatárias de uma variedade de outras áreas e disciplinas (práticas, nos termos de MacIntyre): sem esse contexto argumentativo ao qual pertence as discussões educacionais, não há formas de as conclusões educacionais serem inteligíveis (MACINTYRE, 2005, p. 94). Portanto, desde o pensamento do filósofo escocês, a educação não é um campo separado de ideias, mas está vinculada à sua reflexão sobre a moralidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMAYA, Amaya, J. M. G. y SÁNCHEZ MIGALLÓN, S. Diagnóstico de la Universidad en Alasdair MacIntyre. Pamplona: EUNSA, 2011.

ARRIOLA, C. M. R. Tradición, Universidad y Virtud. Filosofía de la Educación Superior em Alasdair MacIntyre. EUNSA: Pamplona, 2000.

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GONZÁLEZ PÉREZ, Juan. Una Biografia Intelectual de Alasdair MacIntyre. Navarra: Universidad de Navarra, 2006.

KEENEY, Patrick. Liberalism, Communitarianism and Education. Reclaiming Liberal Education. London: Ashgate Publishing Limited, 2007.

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MURPHY, James B. The Teacher as the Forlorn Hope of Modernity: MacIntyre on Education and Schooling. Revue Internationale de Philosophie. Vol. 264. Nº 2, p. 183-199, January, 2013.

MURPHY, Mark. Alasdair MacIntyre. Cambridge: Cambridge Press, 2003.

TORRE DÍAZ, F. J. Alasdair MacIntyre: ¿Un Crítico del Liberalismo? Madrid: Dykinson, 2005.

 

 

Para uma reflexão a respeito do contexto mais amplo das ideias aqui trabalhadas, remete-se ao texto:

 

ROHLING, Marcos. Formação Moral, Florescimento Humano e Público Educado. A Educação na Teoria Moral de MacIntyre. Educação e Filosofia (UFU. IMPRESSO), v. 32, p. 1-20, 2018, que se encontra disponível em:

 

https://seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/46615

 

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