A teoria moral de Santo Anselmo é uma das mais originais e criativas produzidas durante o medievo. Ela tem as marcas do pensamento dialético, que caracteriza o seu pensamento. Evidentemente, são poucos os que se interessam por ela, de forma que, como sugeriu Lacerda, é uma das teorias esquecidas da justiça (LACERDA, 2006, p. 29-35).
Ainda assim, o fato de Santo Anselmo não ter produzido uma abordagem sistemática sobre a moralidade, ou de ter dedicado um livro ou tratado especialmente a ela, atrelado ao fato de que outros filósofos e teólogos desse período deram muito mais espaço à reflexão sobre a moralidade, como Agostinho, que o precedeu, ou mesmo Pedro Abelardo, Tomás de Aquino e Duns Scotus, que viveram após ele, é um ponto que pode muito bem explicar o pouco interesse que o tema da moralidade desperta no pensamento de Anselmo.
De fato, o seu brilhantismo se faz perceber mais facilmente em outros aspectos da sua filosofia e da sua teologia. Não obstante, a contribuição do Doutor Magnifíco é notável, sobretudo, por anteceder, em alguns aspectos, conceitos e ideias que, mais tarde, aparecerão no deontologismo kantiano na ênfase dada à vontade.
Com efeito, sobre a questão da justiça na teoria moral, indubitavelmente, o seu primado sobre a felicidade é característico de qualquer modelo de viés deontológico. No entanto, existem elementos eudaimonistas, próprios da ética de virtudes, de forma que a sua concepção ética conjuga dois modelos éticos. A análise sobre a justiça na teoria moral anselmiana evidencia algo nesse sentido, pois, embora a justiça deva ser observada por sua própria retidão, como requeriria modelos caracteristicamente deontológicos, do qual Kant é o grande baluarte, a virtude desempenha uma função considerável, já que ela seria a reta intenção, conforme a vontade permita agir, e a reta intenção, por sua vez, se estabelece em termos de assentimento aos mandamentos de Deus (SADLER, 2008; SADLER, 2012).
Fazendo-se um breve recorte indicativo, tendo em vista que a temática moral da justiça aparece em muitas das obras de Santo Anselmo, pode-se aponta-las particularmente em algumas de suas principais obras, vale dizer, o Monologium, o Proslogium e o De Veritate.
Com base nisso, pode-se dizer que, no Monologium e no Proslogium, a justiça é concebida como um dos atributos de Deus: (a) a justiça é um atributo da Essência de Deus, conforme o Monologium; e (b) a justiça é vista como misericórdia divina, de acordo com o Proslogium. Já no De Veritate, a justiça é defendida como uma qualidade mais próxima das capacidades humanas, isto é, como rectitudo voluntatis – a retidão da vontade é elementar.
Cabe dizer, também, que as relações entre justiça e moralidade permite outros horizontes: de um lado, a busca da justiça per si como horizonte e desdobramento da moralidade no sentido de que a ação justa e moralmente correta é aquela que corresponde à observância da retidão, independentemente dos efeitos que isso possa causar ao agente moral; e, de outro lado, a justiça e a vida moral, põe em evidência os traços de racionalidade que caracterizam o discernimento moral e, ao mesmo tempo, o requisito de que uma ação moralmente correta implica apenas em consciência da retidão, nada mais que isso.
Para saber mais desta relação, recomenda-se a leitura do artigo exclusivamente voltado para essa questão:
"ROHLING, M. A Justiça na Teoria Moral de Anselmo": https://seer.ucp.br/seer/index.php/synesis/article/view/970
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