Em geral, considera-se que Anselmo pouco desenvolveu uma teoria moral suficientemente clara. Em certo sentido, isso é verdade, tendo em vista que a atenção do autor em questão nunca tenha sido a formulação de qualquer teoria stricto sensu. Dessa forma, é bastante aceitável a consideração de que não há em Anselmo nem uma teologia, nem uma filosofia sistematicamente constituídas. No entanto, crê-se que Anselmo tenha argumentado, em relação à ética, de forma implícita em seus tratados, sejam eles filosóficos ou teológicos, mas principalmente, numa trilogia de tratados (escritos entre 1080 e 1086) dedicados, todos, ao que denominou de estudo da Sagrada Escritura, a saber: De Veritate, De Libertate Arbitrii e De Casu Diaboli.
Num contexto mais amplo, no que se refere à teoria moral, Anselmo sofre forte influência da psicologia moral desenvolvida séculos antes por Agostinho. E é justamente nessa trilogia, na qual se percebe nitidamente a influência do Bispo de Tegaste, que se encontram os conceitos mais importantes na caracterização de sua teoria moral: a verdade (veritas), a retidão da vontade (rectitudo voluntatis), a justiça (justitia), a liberdade (libertas) e a graça (gratia), entre outros. De modo mais particular, Anselmo adota a perspectiva segunda a qual a graça induz na alma uma disposição para avançar até o bem (affectio justitiae), adequando, dessa feita, as ações pessoais à vontade de Deus. Essa caracterização, evidentemente, valoriza enormemente, na linha de Agostinho, o papel que tem a vontade (voluntas) na realização da moralidade, de tal modo a afirmar-se haver, na ética anselmiana, uma tendência ao volutarismo (HALDANE, 2004, p. 207-8), tanto quanto ao intuicionismo (VANNI ROVIGHI, 1987, p. 46).
Com efeito, é justamente a virtude que permite uma indicação da tradição a qual pertence a ética de Anselmo: a tradição da ética das virtudes (SADLER, 2008; SADLER, 2012), posto que a virtude seria a reta intenção, conforme a vontade permita agir, e a reta intenção, por sua vez, se estabelece em termos de assentimento aos mandamentos de Deus. Teorias éticas como as do comando divino, as da lei natural, ou, em termos contemporâneos, deontológicas e consenquencialistas, não indicariam os traços gerais da teoria ética de Anselmo, muito embora encontrem-se traços que permitem afirmar vincualação ao deontologismo, ou a uma forma híbrida de deontologismo e ética das virtudes.
Nessa forma de considerar, a natureza da ética de Anselmo, qual seja, a de que ela é a expressão de uma forma deontológica indissociável do eudaimonismo medieval, por sua vinculação à linguagem das virtudes e dos bens, a felicidade não logra supremacia, pois que Anselmo declara a superioridade do justo sobre o bem (felicidade). A felicidade anselmiana não é fundacional do ato moral, não consiste no fundamento do ato moral, mas na recompensa da qual o homem justo é merecedor. Assim, é um bem que o homem justo e virtuoso pode esperar receber, e não um bem o qual deve ser perseguido. Ainda assim, a felicidade é um componente da moralidade anselmiana, não como fundamento, mas como elemento que cabe a Deus dispensar. É de relevo ter presente que a ética anselmiana declara que a justiça e a retidão da vontade devem ser guardadas por si mesmas. Desse modo, é pertinente afirmar que a teoria moral do Bispo de Canterbury é sui generis: uma ética de virtudes e, ao mesmo tempo, uma versão deontológica (não em suas versões contemporâneas); mais criteriosamente, é uma versão híbrida, uma ética deontológica de virtudes, na qual a justiça e a retidão da vontade são centrais. O homem virtuosamente justo pode, portanto, esperar a recompensa da vida feliz junto de Deus, mas não pode fundamentar sua moralidade na busca de tal bem (εὐδαιμονία), pois compete a Deus, e somente a Ele, dispensar os prêmios para o justo por sua diligente vida vivida sob a égide da retidão (MONTES D'OCA, 2011, p. 17; BROWER, 2005).
No entanto, a importância da virtude é fundamental: de forma mais simples, a virtude pode ser compreendida através do seguinte raciocínio: há uma disposição para a justiça presente em boas e más pessoas, conforme será visto, que é uma consequência da posse da vontade, e que a vontade reta, que caracteriza a justiça, pode ser perdida. A virtude para Anselmo seria, como interpreta Brower, a disposição estável ou o hábito de escolher o que é certo pela razão certa (BROWER, 2005, p. 248). A virtude assim compreendida, isto é, como a disposição que dá à vontade da pessoa justa a sua abrangência dominante, como o único desejo ou intenção de unificação da vida de pessoas justas, será fundamental para a compreensão da justiça, posto que está especialmente ligada à ideia de retidão da vontade, no De Veritate. No entanto, Anselmo fala da justiça em alguns escritos anteriores, a saber, o Monologium e o Proslogium.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PRIMÁRIAS
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ANSELMO. A Verdade. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).
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______. De Veritate. In: ALAMEDA, J. San Anselmo. Obras Completas. Edición bilingüe. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, Tomo I, 1952.
______. De Casu Diaboli. In: MIGNE, Jacques-Paul (Ed.). S. Anselmus, Cantuariensis Archiepiscopus. Opera Omnia. In: Patrologiae Cursus Completus. Series Latina. Parisiis, 1864. v. 158-159. Disponível em: http://www.documentacatholicaomnia.eu/02m/1033-1109,_Anselmus_Cantuariensis,_De_Casu_Diaboli,_MLT.pdf. Acessado em 15/01/15.
CORBIN, Michel. S.J. Saint Anselme de Cantorbéry. L’Oeuvre de S. Anselme de Cantorbéry. Paris: Cerf, 1986-2004. 6v.
CASTAÑEDA, F. Anselmo de Canterbury. Tratado sobre la Caida del Demonio. Bogotá: Uniandes, 2005.
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MIGNE, Jacques-Paul (Ed.). S. Anselmus, Cantuariensis Archiepiscopus. Opera Omnia. In: Patrologiae Cursus Completus. Series Latina. Parisiis, 1864. v. 158-159. Disponível em:http://www.documentacatholicaomnia.eu/20_50_1033-1109-_Anselmus_Cantuariensis.html.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SECUNDÁRIAS
BROWER, J. Anselm on Ethics. In: DAVIES, B.; LEFTOW, B. (Eds.). The Cambridge Companion to Anselm. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
HALDANE, John. La Ética Medieval y Renacentista. In: SINGER, Peter. Compendio de Ética. Madrid: Alianza Editorial, 2004.
MONTES D'OCA, F . Deontologia e Teleologia na Moral de Anselmo de Cantuária. In: II Congresso Internacional de Filosofia Moral e Política, 2011, Pelotas. Anais do II Congresso Internacional de Filosofia Moral e Política. Pelotas: UFPel, 2011. p. 1-21.
SADLER, Gregory B. Mercy and Justice en St. Anselm's Proslogium. American Catholic Philosophical Quarterly, Vol. 81, nº 1, p. 41-61, 2006.
______. Freedom, Inclinations of Will, and Virtue in Alselm’s Moral Theory. American Catholic Philosophical Quarterly, Vol. 80, p. 91-108, 2008.
______. What Kind of Moral Theory Does St. Anselm Hold? Presentation from the 6th Annual Felician Ethics Conference, held at Felician College. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iKX2WozrmPk, acessado em 22/12/14.
VANNI ROVIGHI, Sofia. Etica de S. Anselmo. AA, 1, p. 73-99, 1969.
______. Introduzione a Anselmo d'Aosta. Roma: Laterza, 1987.
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